DAATNEWS PORTUGAL Outubro 2025

Quando o Corpo Grita e Ninguém Ouve: A Experiência de Viver com Paniculite por DAAT
Autor do comentário: Dra. Catarina Guimarães. MD, Pneumologista, ULS Alto Ave.
Jaiden Townsend, Reem Alluhibi, Nicky Lynch, Richard Woolf, Aileen Marshall, David A Lomas, John R Hurst.
PLoS One. 2025 Jun 26;20(6):e0326686. doi: 10.1371/journal.pone.0326686. (Abstract do artigo)

O artigo de Townsend et al. explora a experiência vivida pelos doentes diagnosticados com paniculite associada à deficiência de alfa-1 antitripsina (DAAT), uma condição inflamatória rara e frequentemente negligenciada. Através de uma avaliação qualitativa, baseada em um inquérito direcionado a estes indivíduos, os autores pretendem compreender o impacto psicossocial e funcional dessa manifestação dermatológica da DAAT. A escolha por uma abordagem centrada no doente permite captar aspetos subjetivos que estudos clínicos quantitativos geralmente não contemplam, como o impacto emocional, o estigma social e as dificuldades no diagnóstico e tratamento.
Além dos sintomas físicos, caracterizados por lesões dolorosas, recorrentes e, em muitos casos, desfigurantes, o estudo destaca o impacto psicossocial da paniculite associada à DAAT. Muitos doentes relataram sentimentos de isolamento, frustração e stress, agravados pela dificuldade em encontrar informações fidedignas e pela falta de reconhecimento social e médico da condição. A pesquisa identifica longos atrasos no diagnóstico, falta de reconhecimento por parte de profissionais de saúde, e dificuldades no acesso a tratamentos adequados, o que contribui significativamente para o sofrimento dos doentes. Estes resultados são relevantes pois acabam por retardar o início do tratamento adequado, o que contribui para o agravamento das lesões e para o impacto emocional decorrente da incerteza e da falta de apoio.
As conclusões destacam a necessidade de maior reconhecimento da paniculite associada à DAAT como uma entidade clínica com repercussões reais e debilitantes. O artigo evidencia a importância de uma abordagem multidisciplinar e centrada no indivíduo e aponta para a urgência de estratégias educacionais dirigidas tanto à formação médica como ao suporte psicológico destes doentes. A valorização da escuta ativa, proposta pelos autores, representa um avanço importante na prática médica baseada em evidências e na humanização do cuidado em doenças raras.
Em relação às limitações, seria sempre importante que estudos futuros incluíssem uma amostra maior e mais diversificada, bem como a triangulação de dados qualitativos e clínicos. No entanto, estas limitações não comprometem a relevância do trabalho publicado.
Em suma, trata-se de um artigo com um grande valor prático, que merece ampla divulgação entre profissionais da saúde que lidam com doenças raras e manifestações cutâneas de condições sistémicas.
Serão os PI*MZ semelhantes aos Pi*MM em termos de exacerbações ou hospitalizações?
Autor do comentário: Dra. Joana Gomes. MD, Pneumologista, ULS de Santo António.
Vickram Tejwani, Yifan Wang, Lauren Munoz Tremblay, Elizabeth Azzato, Arianne K Baldomero, Christine Wendt, Amy Attaway, Russell Bowler, Umur Hatipoglu, Rebecca Hutton, Charlie Strange, Xiaofeng Wang, Victor E Ortega, Joe Zein, James K Stoller.
Respir Res. 2025 Jul 11;26(1):243. doi: 10.1186/s12931-025-03322-6. (Abstract do artigo)

A alfa 1 antitripsina (AAT) inibe as elastases neutrofílicas, mas também a quimiotaxia de neutrófilos mediada pela interleucina-8 (IL-8), sendo que a IL-8 demonstrou estar aumentada em doentes com exacerbações de DPOC frequentes. Sabe-se que os indivíduos com DPOC e deficiência de alfa 1 antitripsina (DAAT) PI*ZZ são exacerbadores frequentes, no entanto há poucos dados sobre a frequência de exacerbações em doentes Pi*MZ e sobre o impacto dos níveis de AAT nestas.
Este estudo recorreu aos dados dos registos eletrónicos de um centro (Cleveland) para comparar o uso dos cuidados de saúde pelos Pi*MZ e Pi*MM em termos de exacerbações moderadas (medida pela prescrição de corticosteroide de curto prazo, excluindo-se a prescrição de antibioterapia dadas as múltiplas situações a que se destina), necessidade de cuidados urgentes (consultas não programadas, episódios de urgência) e as hospitalizações por todas as causas.
Em relação aos resultados verificou-se que os indivíduos PI*MZ apresentaram maior risco de exacerbações moderadas de DPOC e de hospitalizações por todas as causas comparativamente aos PI*MM. Notavelmente, indivíduos PI*MZ com níveis de AAT < 90 mg/mL apresentaram um risco significativamente maior de hospitalizações por todas as causas, o que ressalva a importância de diagnosticar e de intervenções dirigidas a estes indivíduos. Em relação aos hábitos tabágicos e condições socioeconómicas, fatores que podem impactar a frequência de exacerbações, verificou-se no grupo MZ uma maior percentagem de não fumadores e mais indivíduos a residir em áreas com melhores condições socioeconómicas. A função pulmonar medida pelo FEV1 não apresentou diferenças entre os 2 grupos, no entanto os dados sobre a função pulmonar foram escassos e apenas houve acesso ao FEV1 pré-broncodilatação, limitando a possibilidade de avaliar corretamente os indivíduos com diagnóstico de DPOC. O aumento do risco de hospitalização nos doentes MZ com níveis de AAT < 90 mg/dL merece uma ressalva, dado que se verificou que os níveis de base desta proteína podem influenciar o prognóstico destes indivíduos. Não se verificou influência dos níveis de AAT na frequência de exacerbações moderadas de DPOC nos MZ.
Algumas limitações deste estudo merecem destaque, começando pelo facto de ser baseado em registos eletrónicos, com falhas nomeadamente na caraterização dos doentes, avaliação dos hábitos tabágicos e prescrições realizadas fora deste sistema. Outra limitação refere-se à prescrição de corticosteroides, que não é exclusiva das exacerbações de DPOC, pelo que o número de exacerbações de DPOC pode estar sobrevalorizado. Também se consideraram as hospitalizações por todas as causas, o que pode obscurecer a relação da DDAT com o motivo da hospitalização. O facto do estudo estar limitado a um único centro também é limitativo, necessitando de ser replicado prospectivamente em estudos futuros com populações de indivíduos MZ melhor caracterizadas.
Uma Dualidade Enigmática: A Ligação entre Deficiência de Alfa-1 Antitripsina e Asma
Autor do comentário: Dr. José Coutinho Costa. MD, Pneumologista, ULS Entre Douro e Vouga
José Luis Lopez-Campos, Belén Muñoz-Sánchez, Marta Ferrer-Galván, Esther Quintana-Gallego.
Biomolecules. 2025 Jun 3;15(6):807. doi: 10.3390/biom15060807. (Abstract do artigo)

O artigo de revisão «Deficiência de Alfa-1 Antitripsina e Asma: Desafios Atuais» é um documento recente e desafiante, uma vez que lança uma luz sobre a complexa e ainda pouco compreendida relação entre a deficiência de alfa-1 antitripsina (DAAT) e a asma. Classicamente, a DAAT está associada ao enfisema pulmonar e a doenças hepáticas. No entanto, a forma como esta condição genética interage com a asma, uma doença respiratória com elevada prevalência, permanece ainda mal compreendida e é objeto de intenso debate e investigação.
Esta revisão revela uma grande variabilidade nos estudos de prevalência. A prevalência de mutações associadas ao DAAT em doentes com asma varia de 2,9 % a 25,4 %. Por outro lado, a prevalência de asma em doentes com DAAT também varia significativamente, de 1,4 % a 44,6 %, sendo os valores mais elevados registados nos EUA, onde existem registos nacionais de longa data. Esta variabilidade está relacionada, em grande parte, com as inconsistências metodológicas e falta de critérios de diagnóstico padronizados. Apesar de alguns estudos sugerirem algum impacto da DAAT na hiperreactividade brônquica, função pulmonar, atopia e agudizações, o artigo conclui que a evidência atual é insuficiente para estabelecer uma relação causal direta entre a DAAT e o desenvolvimento de asma, ou um impacto claro na gravidade ou prognóstico da doença.
Outro ponto fundamental abordado é a terapêutica de substituição. O artigo salienta a ausência de ensaios clínicos desenhados especificamente para avaliar a sua eficácia em doentes com asma. Alguns estudos sugeriram que esta terapêutica poderia reduzir a inflamação e stress oxidativo associada à asma e existem alguns relatos de casos isolados de melhoria clínica após o início da terapêutica. No entanto, tratam-se de casos singulares e, por isso, as recomendações atuais de tratamento não incluem esta terapêutica para doentes com asma e DAAT.
Em suma, a relação entre a DAAT e a asma permanece um desafio clínico, levantando mais duvidas do que certezas. A falta de estudos robustos e que considerem os diversos fenótipos de asma (particularmente a asma T2 low), impede a obtenção de resultados fidedignos. Contudo, o rastreio para DAAT é recomendada por reconhecidas sociedades respiratórias em populações selecionadas, especialmente aquelas com fenótipos graves ou atípicos. Futuras investigações deverão focar-se na interação fisiopatológica entre a DAAT e os endótipos específicos de asma, o que poderá ajudar a identificar alvos terapêuticos e a esclarecer a relevância desta associação.
Biomarcadores funcionais no enfisema: um passo à frente dos níveis de Alfa-1 Antitripsina
Autor do comentário: Dra. Catarina Guimarães. MD, Pneumologista, ULS Alto Ave.
Gerard Orriols, Cristina Aljama, Francisco Rodriguez-Frias, Pablo-Gabriel Medina, Roser Ferrer-Costa, Galo Granados, Alexa Nuñez, Ane López-González, Gerardo Ruiz-Satelinas, Marc Miravitlles, Miriam Barrecheguren, Cristina Esquinas.
PLoS One. 2025 Jun 5;20(6):e0324237. doi: 10.1371/journal.pone.0324237. (Abstract do artigo)

Esta publicação traz contribuições importantes para a compreensão da atividade inibitória da elastase (AIE) no soro de doentes com enfisema, com e sem deficiência de alfa-1 antitripsina (DAAT). Ao utilizar um método semi-automatizado e acessível para quantificação enzimática, foi analisada a relação entre AIE, níveis de AAT e características clínicas, com o objetivo de avaliar o valor da enzima como possível biomarcador de gravidade da doença.
O desenho do estudo, transversal, envolveu 86 participantes: 36 com DPOC sem DAAT, 20 com DPOC e AATD (Pi*ZZ), dos quais 11 em terapia de reposição, e 30 controles saudáveis. A metodologia de quantificação da AIE por ensaio cromogénico espectrofotométrico demonstrou-se robusta, com boa correlação entre níveis séricos de AAT e EIA (r variando de 0,58 a 0,89, com significância estatística), o que reforça a validade técnica do método.
Os resultados mostram que doentes com DPOC sem AATD apresentaram maiores valores absolutos de EIA e AAT, enquanto doentes Pi*ZZ sem tratamento tiveram os níveis mais baixos. Um dos principais resultados foi que doentes Pi*ZZ em terapeutica de reposição registaram valores de EIA semelhantes aos dos controles. Este dado reforça o valor terapêutico da reposição de AAT não apenas em termos de níveis séricos da proteína, mas também em sua função biológica inibitória, um aspeto essencial para prevenir a destruição do tecido pulmonar. Outro dado relevante foi a análise da relação AIE/AAT, que foi mais elevada em doentes com DPOC sem DAAT e naqueles em tratamento de reposição, em comparação com controles e Pi*ZZ sem tratamento. Isso abre uma possibilidade terapêutica ainda pouco explorada: a utilização da razão AIE/AAT como biomarcador de gravidade ou prognóstico na DPOC que, mesmo com níveis normais de AAT, possam se beneficiar de estratégias terapêuticas voltadas à modulação do eixo protease-antiprotease. Esses achados também sugerem que, no futuro, o monitoramento da AIE — isoladamente ou em conjunto com outros marcadores — pode ser útil para guiar o início, ajuste ou até a suspensão da terapia de substituição em doentes com DAAT.
O estudo apresenta limitações, entre elas o desenho transversal e o número reduzido de doentes com Pi*ZZ, bem como a ausência de medidas no fluido alveolar. Ainda assim, a técnica empregada é acessível e de baixo custo — atributos importantes para potenciais aplicações clínicas futuras. Outro ponto importante é a proposta de que novas abordagens terapêuticas poderiam ser desenvolvidas para modular a AIE a nível local, pulmonar, especialmente em doentes sem DAAT. Isso poderia incluir inibidores seletivos de elastase, antioxidantes ou até mesmo terapias genéticas direcionadas à resposta inflamatória.
Em síntese, o estudo aponta para uma potencial de mudança no paradigma terapêutico da DPOC e do enfisema: o foco não apenas nos níveis séricos de AAT, mas na sua atividade funcional, com possíveis implicações para tratamentos mais personalizados e eficazes.
Coordenação Científica
Dra. Joana Maria Lobo Gomes
MD, Pneumologista,
ULS de Santo António.
Dra. Catarina Sofia Romano Gonçalves Guimarães
MD, Pneumologista,
ULS Alto Ave.
Apoio
Dra. Rosa Leal
Medical Scientific Liaison
CSL™
Comentadores
Dr. José Coutinho Costa
MD, Pneumologista,
ULS Entre Douro e Vouga








