DAATNEWS PORTUGAL Abril 2025

Deficiência de alfa-1 antitripsina: onde nos encontramos e qual o caminho?
Autor do comentário: Dra. Catarina Guimarães. MD, Pneumologista, ULS Alto Ave.
James K Stoller
Ann Am Thorac Soc. 2024 Sep 23. doi: 10.1513/AnnalsATS.202406-600FR. (Abstract do artigo)

O artigo «Detecting Alpha-1 Antitrypsin Deficiency: Current State, Impediments, Opportunities, and Future Directions» aborda o estado atual da deteção da deficiência de alfa-1 antitripsina (AAT), os desafios enfrentados na identificação de indivíduos afetados, as oportunidades para melhorar o diagnóstico e as diretrizes futuras para a pesquisa e a prática clínica.
Atualmente, a deteção da deficiência de AAT é realizada principalmente por meios laboratoriais, que medem os níveis de AAT no sangue, e testes genéticos, que caracterizam a mutação presente. No entanto, muitos casos permanecem subdiagnosticados devido à falta de consciencialização entre profissionais de saúde e à variabilidade na apresentação clínica da doença. Para além disso, a dificuldade de acesso a testes específicos em alguns países/regiões são barreiras importantes, o que pode levar a diagnósticos tardios e, consequentemente, a um seguimento inadequado da doença.
Apesar dos avanços na tecnologia de diagnóstico, ainda existem lacunas na compreensão da doença, especialmente em populações sub-representadas. A necessidade de campanhas de consciencialização e educação para médicos e doentes é fundamental, pois isso pode levar a um aumento na deteção precoce e na orientação adequada da alteração genética. As oportunidades para melhorar a deteção incluem políticas de saúde pública que incentivem a a implementação de triagens em grupos de risco, como aqueles com histórico familiar de doenças pulmonares ou hepáticas. A colaboração entre instituições de saúde, investigadores e organizações de doentes pode facilitar o desenvolvimento de diretrizes mais eficazes para o diagnóstico e tratamento da deficiência de AAT. Em termos de orientações futuras, mais pesquisas devem ser realizadas para perceber melhor a fisiopatologia da doença e suas manifestações em diferentes populações.
Este artigo oferece uma visão abrangente sobre a deficiência de AAT, destacando a importância da deteção precoce e os desafios que ainda existem nesse campo. A ênfase na educação e conscientização é crucial, pois muitos profissionais de saúde podem não estar cientes da patologia ou das suas implicações. A inclusão de testes para deficiência de AAT em programas de triagem neonatal ou em avaliações de saúde ocupacional pode ser uma estratégia efetiva para identificar indivíduos em risco e iniciar o tratamento precocemente. Além disso, a sugestão de utilizar novas tecnologias para aprimorar o diagnóstico é promissora. A procura de tratamentos eficazes que possam aumentar os níveis de AAT ou corrigir os efeitos da deficiência é uma área promissora que pode oferecer esperança para muitos doentes afetados por essa deficiência genética. A inteligência artificial, por exemplo, pode revolucionar a forma como as doenças genéticas são detetadas, permitindo uma análise mais rápida e precisa dos dados dos doentes. No entanto, é fundamental que essas inovações sejam acompanhadas de uma aprendizagem adequada dos profissionais de saúde, garantindo que eles possam interpretar e aplicar os resultados de maneira eficaz.
Em suma, o artigo não apenas destaca a importância da deteção da deficiência de AAT para melhorar o prognóstico dos doentes, mas também destaca os desafios atuais e as oportunidades para o futuro, para um futuro em que a colaboração e a inovação tecnológica podem transformar o diagnóstico e o tratamento. A consciencialização, a educação e a implementação de políticas de saúde eficazes são fundamentais para superar os obstáculos atuais e garantir que mais indivíduos recebam os cuidados necessários.
Tendência nos internamentos de doentes com deficiência de alfa 1 antitripsina em Espanha entre 2016 e 2022
Autor do comentário: Dra. Joana Gomes. MD, Pneumologista, ULS de Santo António.
Javier de-Miguel-Diez, Ana Lopez-de-Andres, José J Zamorano-Leon, Valentín Hernández-Barrera, Natividad Cuadrado-Corrales, Ana Jimenez-Sierra, David Carabantes-Alarcon, Rodrigo Jimenez-Garcia
J Clin Med 2024 Oct 31;13(21):6564. doi: 10.3390/jcm13216564. (Abstract do artigo)

Na DPOC verificam-se alguns problemas relacionados com o género que poderão ser igualmente relevantes na deficiência de alfa 1 antitripsina (DAAT), como exposições ocupacionais e alguns comportamentos de risco, tais como consumo de tabaco e álcool, que são diferentes entre géneros e têm um impacto significativo nas doenças pulmonar e hepática de indivíduos com DAAT. A ausência de coortes com elevado número de doentes dificulta a compreensão das caraterísticas clínicas e história natural de doenças raras.
Este estudo descritivo, retrospetivo e observacional foi realizado a partir da base de dados hospitalar espanhola (Spanish Hospital Discharge Database), e analisou dados das altas entre 1 de janeiro de 2016 e 31 de dezembro de 2022 de todos os internamentos com código ICD-10 E88.01, correspondente a deficiência de alfa 1 antitripsina. Verificou-se um aumento do número de internamentos por DAAT em Espanha entre 2016 e 2022, que foi constante exceto no ano de 2020, provavelmente no contexto da pandemia COVID19 e do receio do contacto hospitalar durante esse período. As doenças mais comumente relacionadas com DAAT neste estudo foram as respiratórias, nomeadamente DPOC e enfisema. O tabagismo, que pode exacerbar de forma significativa doenças respiratórias, é o principal fator de risco para DPOC rapidamente progressiva em indivíduos com DAAT. As patologias não respiratórias mais associadas à DAAT foram a doença hepática, verificando-se ainda elevada prevalência de HTA, diabetes e insuficiência renal crónica. A frequência de enfarte do miocárdio verificada neste estudo foi menor, o que já se tinha verificado num estudo prévio de Zoller e colegas. A COVID19 foi diagnosticada em cada 1 de 10 admissões hospitalares. Verificou-se que 8,05 % dos doentes com DAAT tiveram necessidade de admissão em cuidados intensivos e a mortalidade intra-hospitalar foi de 4,55 %, sem variação temporal neste período. Em relação às diferenças por sexo, objetivou-se que os homens contabilizaram 60 % das hospitalizações, tiveram internamentos mais frequentes e mais comorbilidades. Nos homens verificou-se uma maior prevalência de DPOC e enfisema, apneia obstrutiva de sono, doença hepática, diabetes, HTA, doença renal crónica e neoplasia pulmonar. Já as mulheres apresentaram mais frequentemente bronquiectasias, asma, depressão, osteoporose, refluxo gastroesofágico e obesidade. Nos doentes com DPOC verificou-se que a bronquite foi mais frequente nas mulheres e o enfisema nos homens, provavelmente de acordo com exposição a fatores de risco. Da análise dos dados neste estudo, os preditores de mortalidade intra-hospitalar em ambos os sexos foram idade mais avançada, internamentos mais frequentes, doença hepática e neoplasia pulmonar. Nos homens, a insuficiência cardíaca congestiva, a pneumonia e a COVID19 foram associados a maior mortalidade intra-hospitalar.
Os principais pontos fortes deste estudo são a grande coorte de doentes e o longo período analisado. No entanto, apresenta como limitações o seu desenho retrospetivo, ser dependente de uma codificação precisa e dos dados disponíveis, uma vez que não houve acesso a informação sobre genótipos da DAAT, estratificação de doença, função pulmonar, análises ou terapêutica de reposição.
Programa De Treino De Exercício No Doente Com Deficiência De Alfa-1 Antitripsina (DAAT) E DPOC: Alta Ou Moderada Intensidade?
Autor do comentário: Dra. Cidália Rodrigues. MD, Pneumologista – ULS Coimbra.
Inga Jarosch, Tessa Schneeberger, Rainer Gloeckl, Daniela Kroll, Clancy Dennis, Wolfgang Hitzl, Klaus Kenn, Andreas Rembert Koczulla.
Respiration. 2025;104(3):200-205. doi: 10.1159/000541448. Epub 2024 Oct 19. (Abstract do artigo)

O treino de exercício físico é considerado umas das intervenções não farmacológicas mais importantes na abordagem do doente com DPOC; melhora a capacidade de exercício, a qualidade de vida e reduz complicações.
A evidência de benefício em doentes com DAAT é geralmente extrapolada de estudos com doentes com DPOC sem DAAT, devido à escassez de dados específicos para DAAT. Por outro lado, os dados disponíveis para pacientes com DAAT (genótipo PiZZ) indicam que, comparativamente aos pacientes com DPOC (genótipo PiMM), o benefício na melhoria da capacidade de exercício após o programa de treino pode ser menor.
Portanto, é fundamental otimizar os programas de treino, para melhorar a capacidade oxidativa do musculo e potenciar resultados.
Este estudo randomizado-controlado, realizado em uma população de doentes com DAAT e DPOC (30 doentes), teve como objetivo comparar os efeitos de um programas de treino, com diferentes intensidades de exercício (alta intensidade vs moderada intensidade) durante 3 semanas. Os resultados revelaram que tanto o treino de alta intensidade quanto o de intensidade moderada, foram igualmente eficazes em melhorar a capacidade de exercício, qualidade de vida e dispneia dos doentes. No entanto, apenas no grupo com treino de alta intensidade houve redução significativa dos sintomas de ansiedade e depressão, em doentes que previamente apresentavam níveis elevados destes sintomas.
O pequeno tamanho da amostra e a curta duração do estudo limitam a generalização dos resultados, no entanto, o estudo contribui para melhorar o entendimento da reabilitação respiratória nos doentes com DPOC associada a DAAT. Reforça que tanto o treino de alta intensidade quanto o de moderada intensidade são eficazes, permitindo personalizar o programa de acordo com a condição clínica e preferência do doente, mantendo os benefícios. Demostrou que doentes com sintomas de ansiedade e depressão podem melhorar destes sintomas apenas quando é realizado treino de alta intensidade. A razão não é clara, mas sugere que a intensidade do exercício pode ter efeitos psicológicos importantes, além dos benefícios físicos, achados que merecem maior investigação atendendo o grande impacto das comorbilidades psicológicas na qualidade de vida do doente e adesão ao tratamento.
A avaliação não invasiva da fibrose hepática como importante preditor de mortalidade nos doentes Pi*ZZ
Autor do comentário: Dr. Luis Maia. MD, Gastrenterologia-Centro Hospitalar do Porto-Hospital de Santo António
Malin Fromme, Audrey Payancé, Mattias Mandorfer, Katrine H Thorhauge, Monica Pons, Marc Miravitlles, Jan Stolk, Bart van Hoek, Guido Stirnimann, Sona Frankova, Jan Sperl, Andreas E Kremer, Barbara Burbaum, Christina Schrader, Amine Kadioglu, Michelle Walkenhaus, Carolin V Schneider, Fabienne Klebingat, Lorenz Balcar, Naomi N Kappe, Benedikt Schaefer, Joanna Chorostowska-Wynimko, Elmar Aigner, Sophie Gensluckner, Philipp Striedl, Pauline Roger, John Ryan, Suzanne Roche, Marius Vögelin, Aftab Ala, Heike Bantel, Jef Verbeek, Zoe Mariño, Michael Praktiknjo, Tom J G Gevers, Philipp A Reuken, Thomas Berg, Jacob George, Münevver Demir, Tony Bruns, Christian Trautwein, Heinz Zoller, Michael Trauner, Joan Genesca, William J Griffiths, Virginia Clark, Aleksander Krag, Alice M Turner, Noel G McElvaney, Pavel Strnad.
Gastroenterology. 2025 Feb;168(2):367-381. doi: 10.1053/j.gastro.2024.10.010. (Abstract do artigo)

Neste estudo multicêntrico longitudinal, que envolveu apenas doentes Pi*ZZ, os autores procuraram caracterizar a história natural da doença hepática e encontrar outcomes substitutos (surrogate markers/endpoints) que possam ser usados em ensaios clínicos – em doenças raras de evolução lenta é difícil comprovar o benefício de tratamentos em relação aos outcomes clássicos como mortalidade ou sobrevida livre de transplante, o que complica o desenho dos ensaios clínicos e a aprovação de novos tratamentos. Sendo a fibrose hepática um determinante prognóstico forte na maioria das doenças hepáticas, os autores concentraram-se na sua avaliação não invasiva com elastografia transitória e biomarcadores (APRI e FIB-4), para predição de outcomes.
O estudo dividiu-se em 2 coortes, uma com 737 doentes recrutados de 25 centros entre 2008 e 2023 em que foi feita uma avaliação inicial e uma entrevista de follow-up orientada para outcomes hepáticos e pulmonares (transplante hepático ou pulmonar, cirrose descompensada, morte de causa hepática ou pulmonar) e uma outra com 135 doentes recrutados de 2 centros entre 2015 e 2021 em que, além da avaliação inicial, foi realizada uma nova avaliação da fibrose hepática pelo menos 2 anos mais tarde.
Na primeira coorte, os 737 doentes totalizaram um seguimento de 2634 anos, tendo a mortalidade sido de 1,5/100 anos de seguimento. Confirmaram-se os fatores de risco para o desenvolvimento de complicações hepáticas previamente descritos: idade, sexo masculino e IMC elevado. A fibrose inicial, avaliada por elastografia, foi significativamente superior nos doentes que desenvolveram complicações hepáticas (23,6 vs. 5,3 kPa, p<0,001), tal como quando avaliada pelo FIB-4 ou pelo APRI. O cutoffde 15kPa na elastografia conseguiu predizer o desenvolvimento de complicações hepáticas nos 3 e 5 anos seguintes com uma AUC de 0,98 e 0,95. Significativo foi também o facto de nenhum doente com elastografia inicial <7,1 kPa ter desenvolvido complicações hepáticas ao longo do seguimento.
Neste sentido, a segunda coorte, apenas com doentes com elastografia inicial <7,1 kPa, foi avaliada para a evolução da fibrose por uma mediana de 5 anos. Os 12 doentes em que a fibrose hepática progrediu eram mais frequentemente do sexo masculino e tinham fibrose e esteatose inicial avaliada por elastografia mais elevadas. Em conclusão, a avaliação não invasiva da fibrose hepática, especialmente por elastografia, prediz o desenvolvimento de complicações hepáticas. A progressão da fibrose em doentes com fibrose baixa é rara, acontecendo principalmente em doentes com fatores de risco conhecidos, como sexo masculino, obesidade e esteatose.
Coordenação Científica
Dra. Joana Maria Lobo Gomes
MD, Pneumologista,
ULS de Santo António.
Dra. Catarina Sofia Romano Gonçalves Guimarães
MD, Pneumologista,
ULS Alto Ave.
Apoio
Dra. Rosa Leal
Medical Scientific Liaison
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Comentadores
Dra. Cidália Rodrigues
MD, Pneumologista
ULS Coimbra
Dr. Luis Maia
MD, Gastrenterologia
Centro Hospitalar do Porto
Hospital de Santo António









